Aide-mémoire .

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Flor de tuna, camoatim

Canto Alegretense

Não me perguntes onde fica o Alegrete
Segue o rumo do seu próprio coração
Cruzarás pela estrada algum ginete
E ouvirás toque de gaita e violão
Prá quem chega de Rosário ao fim da tarde
Ou quem vem de Uruguaiana de manhã
Tem o sol como uma brasa que ainda arde
Mergulhado no Rio Ibirapuitã
Ouve o canto gauchesco e brasileiro
Desta terra que eu amei desde guri
Flor de tuna, camoatim de mel campeiro
Pedra moura das quebradas do Inhanduy
E na hora derradeira que eu mereça
Ver o sol alegretense entardecer
Como os potros vou virar minha cabeça
Para os pagos no momento de morrer
E nos olhos vou levar o encantamento
Desta terra que eu amei com devoção
Cada verso que eu componho é um pagamento
De uma dívida de amor e gratidão

sábado, 15 de setembro de 2007

Norah Jones - Sinkin' Soon

Ladies and gentlemen!

domingo, 2 de setembro de 2007

Wislawa Szymborska

Falando sobre poesia com Paulo Scott - papo de churrasco de domingo por estranho que pareça - falei de uma poetisa polonesa cuja existência vim a descobrir numa edição da revista Piaui dois ou três meses atrás. Fiquei impressionado pelo discurso que ela fez por ocasião da cerimônia de entrega do Prêmio Nobel de Literatura que recebeu e também por alguns poemas que a revista publicou. O Scott também havia lido e da mesmo forma se impressionado. O nome é difícil de lembrar mas encontrei o texto na revista Piaui.
Desfrute a passagem do discurso referindo-se ao Eclesiastes:
Às vezes, sonho com situações que não podem virar realidade. Imagino, por exemplo, que tenho uma chance de trocar umas palavrinhas com o autor do Eclesiastes, aquele comovente lamento sobre a vaidade de todos os esforços humanos. Curvo-me profundamente diante dele, pois é um dos maiores poetas, pelo menos para mim. Depois seguro a sua mão. “Não há nada de novo sob o sol — foi o que você escreveu. Mas você mesmo nasceu novo sob o sol. E o poema que criou é também novo sob o sol, uma vez que ninguém o havia escrito antes de você. E todos os seus leitores são também novos sob o sol — aqueles que viveram antes de você não puderam ler o seu poema. E esse cipreste sob o qual está sentado não cresceu desde o início dos tempos. Nasceu de um outro cipreste semelhante ao seu, mas não exatamente igual.
E também sobre o ofício de escrever:

A ALEGRIA DE ESCREVER
Para onde corre este cervo escrito na floresta que escrevi?
É para beber da água escrita, que desenha seu focinho?
Por que ele ergue a cabeça, escutou algo?
Apoiado nas quatro patas emprestadas da verdade ele apura as orelhas sob meus dedos. Silêncio—essa palavra ressoa na textura do papel e afasta os galhos que brotam da palavra floresta.
Sobre a folha em branco há letras espreitando
que podem tomar o mau caminho
formando frases ameaçadoras das quais nada escapa.
Em cada gota de tinta há um bom estoque de caçadores de olho na mira,
prontos a descer pela caneta íngreme, cercar o cervo e apontar as armas.
Eles esquecem que aqui não há vida de verdade.
No preto-e-branco vigem outras leis.
Um piscar de olhos durará o tempo que eu quiser e
poderá ser dividido em pequenas eternidades,
cada uma com chumbo suspenso em pleno vôo.
Aqui nada acontecerá sem meu aval.
Contra minha vontade,
nem uma folha cairá e nem uma grama se dobrará sob o casco do cervo.
Então existe um mundo onde eu possa impor o destino?
Um tempo que eu teço com uma corrente de sinais?
Uma existência que, a meu comando, não terá fim?
A alegria de escrever.
O poder de preservar.
Vingança de uma mão mortal.

Não encontrei nenhum livro publicado em português.